segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Educação e transformação interior

PAUTA DE COMUNICACÃO

Educação e transformação interior

Entrevista com Claudia Werdine

Tema: Educação espírita infanto-juvenil
Objetivo: Esclarecer sobre o ideal de educação espírita e sua contribuição para o educando, à sociedade e à evolução dos pais e educadores envolvidos no processo.

Pauta:

1    1)    O que é a Educação no ponto de vista espírita?
Para entendermos a proposta da Doutrina Espírita para a educação nosso ponto de partida deverá ser esclarecer a diferença entre a Educação e a Instrução já que, de uma maneira geral, existe uma pequena confusão em relação a estes dois termos. A educação abrange a instrução, mas pode haver instrução desacompanhada de educação. A educação forma o caráter e a instrução desenvolve o talento.

Sendo a educação a encarregada de formar o caráter do indivíduo, educar na visão espírita é convidar a cada um de nós a uma profunda mudança interior, sendo a meta essencial aprendermos a amarmo-nos uns aos outros, atitude que refletirá Deus em nós.

Allan Kardec afirma que "é pela educação, mais do que pela instrução, que se transformará a Humanidade".

Partindo deste princípio, o Centro Espírita deve assumir sua feição de escola capacitadora de virtudes e formação do homem de bem, independentemente de fazer ou não com que seus transeuntes se tornem espíritas.

Eurípedes Barsanulfo nos diz que é imprescindível “promover o centro espírita da condição de Escola de Espiritismo para Escola do Espírito ... escola inspirada nas bases doutrinárias e nos ensinos do Evangelho que oferece ao homem sofrido o conteúdo e a rota apropriada para libertar-se da dor e assumir a direção de sua caminhada e as crianças e jovens o entendimento da prática das boas obras, a aquisição da moral e do saber, para que eles atinjam o crepúsculo físico consciente de suas conquistas espirituais, conhecendo a si mesma e situando-se no Universo como colaboradora da Divindade Suprema.



2    2)    O que a Educação Espírita pode proporcionar ao indivíduo?

Na minha opinião, creio que a Educação Espírita é uma ferramenta maravilhosa que nos auxilia a encontrar o caminho da verdadeira felicidade.

Muitas pessoas ainda atrelam a sua felicidade a alguém ou bens materiais. Acham que precisam de alguém ou bens materiais para serem felizes. Isso gera uma constante insatisfação. Quanto mais se tem, mais se quer.

A ideia de que a nossa felicidade está na dependência de uma relação ou num bem material qualquer afasta qualquer possibilidade de realizaçao e bem-estar íntimo. É importante ter alguém para dividir nossas alegrias, tristezas, anseios… a própria natureza, enquanto reencarnados, nos induz a isso. Mas isso não é sinônimo de felicidade. Ser feliz é um estado de ser que independe de fatores externos. A preocupação quanto à vida amorosa, o desejo de ter sempre mais coisas, gera cada vez mais incertezas, produz desconforto com a situação vigente e, muitas das vezes, faz a Vida perder o sentido.

A Vida é muito mais que isso…

Jesus nos ensinou claramente qual é o sentido da vida, informando-nos que somos seres imortais e que vivemos para realizar a nossa evolução espiritual. que ele chamou de edificar o reino dos céus no nosso íntimo.

A Educaçao Espírita mergulha seus integrantes numa “atmosfera” de auto-educação permanente através da conquista de um novo olhar sobre a Vida e seu sentido, que deve auxiliar a cada um de nós na construção de um Novo Homem cujo modelo nos foi oferecido pelo Mestre dos Mestres quando afirmou: Sede Perfeitos…


3     3)    De que forma a filosofia de educação espírita pode motivar uma pessoa a buscar o seu aperfeiçoamento?

Do ponto de vista espírita, a educação não começa no berço nem termina no túmulo, mas antecede ao nascimento e sucede à morte do corpo físico.

 É a ação constante, ininterrupta, que ajuda a modificar os seres, auxiliando-os na escalada evolutiva, rumo à perfeição, na esteira infinita do tempo.

Aquele que se educa tem pela frente tempo suficiente para atingir o ideal da educação à luz do Espiritismo, pois persegue objetivos de longo curso e põe em ação todo o seu potencial com vistas ao alcance dos mais puros ideais de vida. Sabe onde vai . E quem sabe para onde se encaminha, por certo, dará passos mais seguros e contornará muitos obstáculos.


4    4)    Qual é a proposta pedagógica do Cristianismo apresentada pelo Evangelho Segundo o Espiritismo?

Com a chegada de Jesus, um novo paradigma se descortina como proposta pedagógica: a pedagogia do amor!

A pedagogia do amor fortalece a esperança e dá nova dimensão ao nosso relacionamento com Deus. No lugar de um Deus raivoso e vingativo Jesus nos diz: Deus é Pai. Não mais precisamos nos identificar como tementes e sim com filhos que amam Deus, nosso Pai.         
     
 A nova pedagogia trazida por Jesus esclarece, sensibiliza, harmoniza, respeita nossa liberdade, portanto é consoladora, gentil e doce e possibilita a conquista suprema da vida: a felicidade.


5     5)    Como trabalhar a transformação moral em crianças e bebês?

É muito fácil se trabalhar a transformação moral em crianças e bebês pois na fase infantil o espírito está completamente acessível a toda informação recebida.

Vejamos algumas considerações de Allan Kardec a este respeito:

“Encarnando, com o objetivo de se aperfeiçoar, o Espírito, durante esse período, é mais acessível às impressões que recebe, capazes de lhe auxiliarem o adiantamento, para o que devem contribuir os incumbidos de educá-lo.”
(O livro dos espíritos, perg. 383)

“A delicadeza da idade infantil os torna brandos, acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir. Nessa fase é que se lhes pode reformar os caracteres e reprimir os maus pendores.” [...]. (
O livro dos espíritos, 76 perg. 385).

Na família, primeira escola que o Espírito frequenta, a transformação moral deverá ser trabalhada quando ainda o bebê se encontra no ventre materno, principalmente através da vivência cristã  e exemplo edificante dos pais. No Centro Espírita, o ensinamento espírita e a moral evangélica serão levados aos alunos por meio de atividades especificas para cada faixa etária abordando situações práticas da vida, pois a metodologia empregada pretende que o aluno reflita e tire conclusões próprias dos temas estudados, pois só assim se efetiva a aprendizagem real.


6    6)    A partir de que idade pode-se evangelizar uma criança?

Antes de responder, gostaria de esclarecer que aqui na Europa utilizamos o termo Educação Espirita Infantojuvenil no lugar de Evangelização. Mudou-se o termo mas manteve-se o conteúdo.

A Educação Espirita deve ser proporcionada a criança em qualquer idade mas, quanto mais cedo melhor. Para que isso ocorra no Centro Espírita serão necessários alguns itens básicos: espaço adequado, pessoal capacitado...


7    7)    Como é possível evangelizar bebês?

No Brasil, Cintia Vieira de Mello, uma querida amiga, desenvolve um trabalho maravilhoso com bebês. Segundo Cintia, a ideia de evangelizar bebês surgiu a partir da necessidade de atender crianças com menos de 2 anos de idade que, até então, não tinham a oportunidade de participar das atividades de evangelização em sua casa espírita. Os pais queriam que os bebês ficassem nas salas com os irmãozinhos, mas o Centro Espirita não tinha nenhuma condição de receber crianças com faixa etária tão específica… Como ela já trabalhava com musicalização de bebês, a inspiração divina foi a de utilizar a mesma metodologia que ela dominava profissionalmente, a partir de um programa estruturado com conteúdo sobre Deus e os ensinamentos de Jesus.

 O aspecto mais distinto deste trabalho é a possibilidade de participação dos pais junto aos bebês. A presença ativa da mamãe e do papai nas atividades de evangelização do bebê é fonte básica de segurança e bem-estar, facilitando desde a sua adaptação até a sua completa integração ao ambiente educativo espiritual. Não podemos esquecer que os pais são acima de tudo corresponsáveis pelo processo de evangelização de seu filho. Assim, a evangelização propicia conteúdo evangélico doutrinário tanto para o bebê quanto para os pais, além de criar e fortalecer os vínculos da família com a Casa Espírita.

Este trabalho especifico ainda não faz parte da nossa realidade aqui na Europa. Primeiro por falta de um número mínimo de bebês para se criar uma turma e segundo por falta de pessoal qualificado. Mas, o que estamos fazendo nos Centros Espíritas que possuem pais com bebês é integra-los nas classes das crianças menores pois nosso objetivo é que o bebê já participe e se integre na harmonia e vibrações existentes nas salas de aula.


8    8)    Qual o papel do evangelizador dentro do processo de evangelização infantil?

 A figura do educador é de importância fundamental na Educação Espírita Infantojuvenil que se oferece nos Centros Espíritas. Ele é o polo de energia emuladora que criará o ambiente ideal para o trabalho. Suas palavras, seus gestos, seus pensamentos e sentimentos são extremamente importantes no processo educativo. Será ele que propiciará as atividades adequadas para que ocorra a interação da criança com o meio físico e espiritual, permitindo que ela vivencie as atividades, a fim de construir seu próprio futuro.

Para a execução desta tarefa de tão grande responsabilidade, os educadores espíritas, cada vez mais conscientizados da importância do seu trabalho, estudam a Doutrina Espírita, aprofundando conhecimentos doutrinários; e se aperfeiçoam ou se preparam em técnicas de ensino, para melhor atender às exigências do processo ensino-aprendizagem.
Gostaria de ressaltar que todos somos educadores, onde quer que estejamos pois, segundo Dora Incontri,  a educação é toda influência exercida por um Espírito sobre outro, no sentido de despertar um processo de evolução. Essa influência leva o educando a promover autonomamente o seu aprendizado moral e intelectual. Todas as vezes que alguém desperta algum bem no outro, se dá um ato de Educação – tenham disso os protagonistas consciência ou não.

Por isso, a Educação é um compromisso de todo dia e instante, através do nosso exemplo e atuação.


9     9)    Como lidar com a obsessão infantil dentro do processo de evangelização?

Para que todos entendam este tema, primeiramente gostaria de transcrever aqui um trecho do Livro Mediunidade e Obsessão em Crianças de Suely Caldas Schubert:

"...todo o berço de agora retrata o ontem que passou."
Emmanuell

 Muitas são as perguntas que assomam à mente quanto à questão da obsessão na infância. Durante muito tempo, mesmo em nosso meio espírita, havia a idéia de que a criança não sofria atuações de obsessores, de que era cercada de defesas naturais, como, por exemplo, a presença de seu anjo guardião, ou espírito protetor.

A prática, porém, mostrou outra realidade. Assim, muitos dos achaques, doenças e problemas apresentados na fase infantil, aos poucos, foram sendo identificados como presenças de espíritos perseguidores, evidenciando que processos obsessivos também atingem as crianças.

Não é difícil deduzir que a causa profunda, nestes casos, está nas vivências pregressas, já que aquele que momentaneamente habita um corpo infantil é, na verdade, um espírito multimilenar, com uma longa história e vasto cabedal de experiências, a maioria delas comprometedoras.

Portanto, os processos obsessivos podem acontecer também na fase infantil, assim como  ocorrem os transtornos mentais e enfermidades diversas.

Esses  pequenos, que padecem de obsessões, podem e devem ser tratados em instituições espíritas  sérias, através do passe e da água fluidificada. Deverao ser levados as classes de Educaçao Espírita onde torna-se indispensável que lhes dispensemos muita atenção e amor, para  que se sintam confiantes e seguras em nosso meio. Ganhar-lhes a confiança e segurança, cativando-as com muito carinho, pois somente o amor conseguirá romper as barreiras que elas irão enfrentar. Assim estaremos de  certa forma refrigerando essas almas cansadas de sofrimentos, desejosas de serem amadas.


1      10)  Crianças que enfrentam situações traumáticas ou problemas familiares podem ter sua evangelização comprometida? Como o evangelizador deve proceder nestes casos?

Não podemos generalizar pois isso dependerá de vários fatores, principalmente o ambiente familiar, local onde a criança vive a maior parte do tempo.
É importante o educador espírita identificar a causa raiz do problema e verificar com a coordenação do Centro Espírita quais as melhores opções visando diminuir os efeitos da raiz geradora das situações traumáticas que esta criança está enfrentando.
Se é um problema familiar, deverá ser tratada toda a família; se é uma situação traumática desencadeada pela perda de um ente querido, as aulas espíritas proporcionarão os subsídios necessários ao bom entendimento da crianças sobre o assunto.
O proceder do educador deve ser o mesmo citado na pergunta anterior: ... torna-se indispensável que lhes dispensemos muita atenção e amor, para  que se sintam confiantes e seguras em nosso meio. Ganhar-lhes a confiança e segurança, cativando-as com muito carinho.


1    11) Como envolver os pais no processo de evangelização infantil?

A verdadeira missão que os pais têm a desempenhar na Terra fica incompleta, quando eles negligenciam a educação dos filhos. Poderão ser bem sucedidos no desempenho de outras tarefas, todavia dificilmente terão a consciência tranquila, se não encaminharem bem os p próprios filhos, preparando-os adequadamente, não só para a vida aqui na Terra, como para a vida espiritual.

Para atender as atuais necessidades familiares e envolver os pais no processo educativo de seus filhos, o Centro Espírita deverá criar uma área de trabalho que trate exclusivamente da família, tendo um enfoque da mesma como um todo, desde a criança que participa das classes de educação até o idoso que comparece ao Centro. Esta área deverá trabalhar em sintonia com as outras: de Infância e Juventude, Assistência Social, Doutrinário e outras, procurando promover o bem estar da família no Centro Espírita e estimulando sua vinda ao Centro.

 É necessário  Integrar as famílias no Centro Espírita oferecendo-as oportunidades para se tornar elemento ativo no Centro Espirita, de acordo com os seus potenciais.
Objetivos desta integração:

Ø  Incentivar a convivência entre os membros da família com os outros participantes do Centro Espírita;
Ø  Assegurar a permanência das crianças e dos jovens nas classe de educação espirita infantojuvenil;
Ø  Assegurar a permanência das famílias nos Centros Espiritas iniciando assim a vivência na grande família universal;


1    12) O que a educação espírita pode proporcionar aos pais e educadores envolvidos?

 Creio que a resposta para esta pergunta esta contida na pergunta 2.

                                                                                      
1    13) Qual o papel da educação espírita neste momento de transição planetária?

O papel da Educação Espírita é primordial neste momento de transição planetária.

Vejamos o que nos diz Joanna de Angelis a este respeito:

(...) O homem da tecnologia e da biônica, da cibernética e da física quântica, da engenharia genética e da biologia molecular, ensoberbecido pelas conquistas da inteligência derrapa, lamentavelmente, nos tormentos psicológicos característicos da perda da direção de si mesmo e dos objetivos essenciais da vida. (...)

(...) Nestes dias, há glórias do intelecto e aberrações do sentimento, aguardando orientação. O Espiritismo chega, no momento próprio, para convidá-lo a urna revisão de conceitos, bem como a um aprofundamento consciente e sério da realidade de si mesmo, na condição de ser imortal que é, ao invés de apenas factótum orgânico, que ruma sem destino, perdido na própria incúria.(...)

Preocupado, em seu tempo, com as futuras sociedades, esta que estamos experimentando assim como aquela que logo mais surgirá, o insigne Codificador da Doutrina espirita(…), considerou, com propriedade, que... Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança, e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria.Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros, e sim àque consiste na arte deformar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos...


1    14) Palavras finais…

Gostaria de agradecer imensamente pelo carinho e a oportunidade que me foi concedida pelas companheiras do Grupo de Estudos Espíritas Allan Kardec – GEEAK Norge. Falar da Educação Espirita Infanto-Juvenil é para mim um prazer imenso, pois sou apaixonada pelo que faço. Agradeço a Espiritualidade Superior pela confiança que tem depositado no meu trabalho, pela minha família que me apoia nas horas que dedico ao planejamento das atividades e nas inumeras viagens que faço para colocar em prática este planejamento, aos amigos queridos que não me deixam desanimar perante as muitas dificuldades e aos novos amigos que reencontro a cada viagem.

Somos todos responsáveis pela construção do Mundo Novo, pais, educadores, trabalhadores e dirigentes ... todos nós.

Lembremo-nos das sábias palavras de Bezerra de Menezes:

 “Unamo-nos, que a tarefa é de todos nós. Somente a união nos proporciona forças para o cumprimento de nosso serviços, trazendo a fraternidade por lema e a humildade por garantia de êxito.”

Fonte de Consulta:
Ø  O Livro dos Espíritos/
Ø  Evangelho segundo o Espiritismo/
Ø  A Gênese/
Ø  A Educação segundo o Espiritismo/Dora Incontri - Feesp
Ø  Allan Kardec – Meticulosa Pesquisa Bibliográfica/Zêus Wantul e Francisco Thiesen – Feb
Ø  Educação do Espírito – Introdução à Pedagogia Espírita/Walter Oliveira Alves
Ø  Jornal Comemorativo do Bicentenário de Allan Kardec/Federação Espírita do Distrito Federal
Ø  O Problema do Ser do Destino e da Dor/ Léon Denis
Ø  Entrevista com Divaldo Franco – IDE
Ø  As Leis Morais – Segundo a Filosofia Espírita/ Rodolfo Callegari – Feb
Ø  Cristianismo e Espiritismo/ Léon Denis – Feb
Ø  Conferência Dr. Alberto Almeida/ IV Congresso Espírita Mundial – Paris 2004
Ø  Pedagogia Espírita/J. Herculano Pires
Ø  Nossos Filhos são Espíritos – Herminio C. Miranda