quinta-feira, 21 de julho de 2016

Pipo, o burrico valente

Certa vez Pipo, um burrico, cansado de ser desprezado por seus companheiros na cocheira, sentia-se muito infeliz. Não tinha amigos. Os outros animais, cavalos, bois, vacas, carneiros e ovelhas, todos faziam pouco caso dele.

Mimosa, a vaca malhada, mugia:
— Você não serve para nada, Pipo! Eu produzo o leite para meus bezerros e para a alimentação dos filhos do nosso patrão. Mas e você, um burrico, para que serve?

Ruminando o capim, Tufão, o cavalo de raça, levantou a cabeça e concordou:

— É verdade. Se pelo menos Pipo pudesse participar de corridas como eu, a vida dele seria bem diferente. Ah! É tão bom ouvir os aplausos da multidão quando eu venço uma corrida! O patrão me afaga dizendo palavras gentis e, além disso, sempre recebo uma ração extra. Mas nosso burrico, coitado, não serve para nada!...

A ovelha Clara sorriu e concordou:

— É bem feito! Se pelo menos Pipo tivesse pelos, como eu, que o patrão tosa para fazer agasalhos e mantas, seria tratado com consideração e respeito. Mas o coitado não tem utilidade alguma!...

A cada animal que falava, o pobre burrico baixava um pouco mais a cabeça, envergonhado, sentindo-se desprezado por todos. Cansado de ouvir o que diziam dele, Pipo procurou o lugar mais afastado da cocheira, deitou-se e ali ficou quieto e choroso. Os companheiros acabaram se esquecendo dele, falando sobre outros assuntos.

Naquele mesmo dia, mais tarde, caiu uma grande tempestade e os animais não puderam sair da cocheira e ir para o campo. Então, o burrico permaneceu deitado, triste e envergonhado por ser tão sem qualidades. Depois de muito chorar, acabou dormindo enquanto a chuva caía.

De repente, foi despertado por súbito barulho. Era o patrão que vinha buscar um de seus animais para ajudá-lo a retirar uma árvore que, em virtude da chuva, havia caído no meio da estrada, impedindo a passagem.
O burrico olhou para fora e viu que a chuva tinha parado e o sol voltara a brilhar, mas não se moveu. Estava triste e queria ficar ali, deitado.

Junto com seu homem de confiança, o patrão olhou para cada um dos seus animais da cocheira e disse pensativo:

— Preciso de um animal que seja muito forte!

— Patrão, o que acha de Tufão, o cavalo de raça? Ele é forte! — disse o empregado.

— Acho que não serve. Tufão é muito temperamental.

— Ah! E Mimosa, a vaca malhada? Ela é grande, pesada e tem força, meu senhor!

O patrão pensou um pouco e respondeu:

— Não serve. Mimosa tem dificuldade para obedecer. Teimosa, só faz o que quer!

— E a ovelha Clara? Está acostumada a obedecer, senhor.

— É verdade. Mas não tem a força de que precisamos!

De repente, andando pela cocheira, o patrão viu o pobre burrico, que tinha acordado, mas nem se levantara, desanimado da vida, e sorriu:

— Já sei! Pipo, o nosso burrico de carga! Ele tem todas as condições necessárias para executar essa importante tarefa! É forte, obediente e digno de toda confiança.

Assim dizendo, o patrão fez um carinho no lombo do burrico e ordenou:

— Pipo, nós precisamos de você! Levante-se! Temos que tirar uma árvore do meio da estrada e só você pode fazer isso! Vamos, meu valente companheiro!

O burrico abriu os olhos e levantou as orelhas, mais animado. Pôs-se de pé e, de cabeça erguida, orgulhoso de ter sido escolhido para aquela tarefa, passou trotando no meio dos outros animais que, de boca aberta, não acreditavam no que estava acontecendo.

Pipo foi levado para a estrada com todas as honras. O patrão e seu ajudante amarraram cordas no tronco da árvore e, em seguida, passaram pelo corpo do burrico que, usando toda a sua força, puxou, puxou, puxou!... Ele suava e, de cabeça baixa, puxava sempre.

Tanto se esforçou Pipo, que conseguiu tirar a árvore que atrapalhava a estrada.

Depois, todo feliz por ter realizado sua tarefa, voltou para a cocheira.

Quando ele chegou, os demais animais o cercaram, curiosos, indagando como tinha sido o serviço. E ele respondeu, tranquilo e satisfeito:

— Foi fácil! Sou forte e resistente. Estou acostumado com muito peso!

E diante da admiração dos demais, ele comunicou:

— Agora vou descansar um pouco. Trabalhei bastante e mereço!

A vaca, a ovelha, o boi e o cavalo de raça, admirados, passaram a tratá-lo com todo o respeito que o valente burrico merecia. E depois desse dia, nunca mais eles fizeram pouco caso de ninguém, entendendo que todos têm qualidades que, não raro, desconhecemos!

MEIMEI 

(Recebida por Célia X. de Camargo, em 2 de março de 2015.)

Fonte: Revista O CONSOLADOR Ano 9 - N° 412 - 3 de Maio de 2015,